ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 562 - 24/11/2009
  Caderno da Cidadania
Início > Índice Geral > Caderno da Cidadania + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

SAÚDE PÚBLICA
O crack vai fechar escolas?

Por Deonísio da Silva em 4/11/2009

"O crack chegou à escola" – este foi o título do artigo do jurista Paulo Brossard, ex-ministro da Justiça e ministro aposentado do STF, publicado na edição de segunda-feira (2/11) de Zero Hora.

Se ele tivesse utilizado "craque", a forma aportuguesa da palavra, a ambiguidade daria uma boa notícia: a escola estaria cuidando melhor do esporte que no Brasil mais desperta paixões, é instrumento de ascensão social, ainda que para poucos, e hoje compõe um dos itens de exportação. Mas, não. Ele se referia à droga cujo consumo já ultrapassou o da cocaína.

Nossa língua ainda não encontrou palavra adequada para identificar o novo tipo de tóxico e, como sempre, recorreu ao inglês. O étimo está presente em crack-horse, que no turfe designa o cavalo vencedor e no futebol indica o jogador com desempenho sempre acima da média. De resto, passou a designar o profissional altamente qualificado em outras áreas.

Enfim a mídia acordou para o crack, que em inglês quer dizer barulho de alguma coisa quebrando ou simplesmente quebra, como em o crack de bolsas e bancos. É exemplo disso a série de matérias que a imprensa vem dedicando ao assunto. O Globo, com chamadas na primeira página, deu para as reportagens o título geral de "Jovens em Risco".

Uma ilha

O avanço do crack é impressionante. Alguns casos são emblemáticos. O prestigioso Liceu do Coração de Jesus foi fundado por São João Bosco em 1885, com o auxílio da princesa Isabel, no centro de São Paulo, para atender a filhos de imigrantes italianos e de negros libertos. Agora está sendo vencido pela cracolândia, mas chegou a ter três mil alunos. Hoje tem menos de trezentos. Os usuários do crack, conhecidos por "noias", são os principais responsáveis pela debandada dos antigos alunos, transferidos para outras instituições, e pela decadência das novas matrículas, como noticiou a Folha de S.Paulo.

"O que me parece espantoso é que essa catástrofe não sucedeu nos confins do Brasil, que tem os mais variados níveis econômicos e sociais, mas em zona central da capital de São Paulo", destaca Paulo Brossard, acrescentando: "Agora a droga veio dar dimensão industrial ao vício e viciados, zomba da sociedade, dos jovens, estudantes, professores, autoridades de alta hierarquia, da liberdade e da vida das pessoas. É uma ilha dentro do Estado. Tem moral, leis, polícia e até justiça próprias. Nisso pode ser resumido o flagelo".

Idade Média

O Globo destacou uma das conclusões do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que é a mudança no perfil dos clientes do crack, antes pobres em sua maioria: "O caso do músico Bruno Kligierman de Melo, de 26 anos, viciado em crack que, há 11 dias, matou a estudante Bárbara Calazans, de 18, no Flamengo, no entanto, é um exemplo de que a droga já se alastrou para a classe média".

A mídia começa a discutir a legalização do comércio de tóxicos, pois, clandestino, ele atesta seu avanço devastador, enquanto fracassam as estratégias de combate às drogas, as novas pestes desta nova Idade Média à qual adentramos já há algumas décadas.

Comentários (2)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Antonio Ricardo Penha , Rio de Janeiro-RJ - Professor
Enviado em 10/11/2009 às 6:56:16 PM
Creio que o Crack não fechará as escolas. Porém fará um estrago bem grande, pois as políticas de prevenção não acompanham a velocidade de sua inserção nos bolsos dos consumidores. Alunos consomem essa droga barata e perversa como se fosse merenda, e o máximo que escutamos das autoridades são as desculpas pela maneira sorrateira que a droga chega em quase todos os bairros das cidades do Estado do Rio de Janeiro.
marco antonio dos santos , vila velha-ES - servidor público
Enviado em 6/11/2009 às 12:07:06 AM
creio que os nossos "representantes" não resolvem o problema das drogas porque não querem, ficam arrumando paliativos e se preocupando com coisas de somenos importancia. falta vontade política, compromisso com a sociedade e à justiça falta seriedade e aos policiais falta preparo. eu proponho que com esse desempenho voltemos a ser colonia portuguesa.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Deonísio da Silva

Outros artigos desta Seção
VIOLÊNCIA NO RIO
Um aquário com
peixes míopes

Muniz Sodré
3/11/2009
VIOLÊNCIA NA UNIBAN
Esses jovens
merecem um estudo

Ligia Martins de Almeida
3/11/2009
UNESCO & CESeC
Os blogs no debate
sobre segurança pública

Ana Lúcia Guimarães e
Nelson Souza Aguiar
3/11/2009
MÍDIA & EDUCAÇÃO
Outubro, mês dos
professores: um balanço

Gabriel Perissé
3/11/2009
SOCIEDADE VIGIADA
O parto de uma
geração atrasada

Rodrigo C. Vargas
3/11/2009
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Censura nunca mais
Folha de S.Paulo
3/11/2009
SAÚDE PÚBLICA
O crack vai fechar escolas?
Deonísio da Silva
4/11/2009
DEFICIENTES VISUAIS
A irresponsabilidade dos radiodifusores
Lia Segre
5/11/2009
CASO UNIBAN
A culpada é a vítima
Ligia Martins de Almeida
8/11/2009

Últimos 5 artigos de
Deonísio da Silva
REPÚBLICA, 120 ANOS
Duas histórias. Ou mais
24/11/2009
PALAVRAS AO VENTO
Deu um apagão em Caetano
17/11/2009
O SEMINARISTA
Rubem Fonseca, esse desconhecido
10/11/2009
FRIEDRICH SCHILLER, 250 ANOS
Alegrias e tristezas do poeta
3/11/2009
ETERNA POLÊMICA
Hino nacional teve 15 pareceres contrários
27/10/2009
Mais artigos de
Deonísio da Silva >>