Monitor
A crise dos jornais de esquerda na Itália
Victor Gentilli
A Itália é um país curioso. Durante anos, manteve jornais diários de esquerda relativamente fortes e expressivos. O L’Unità, jornal diário ligado ao ex-partido comunista, circula desde o fim da Guerra, e o independente Il Manifesto, da combativa Rossana Rossanda, circula há mais de 26 anos. Com a dissolução do antigo PCI, a revista semanal Rinascita deixou de circular e o L’Unità continuou vinculado ao novo partido Democrático de Esquerda (PDS). A minoria que recusou a nova proposta partidária criou um novo partido, Refundação Comunista, e um jornal, Liberazione. Até cerca de um ano, os jornais de esquerda na Itália viviam uma fase de esplendor. O que a esquerda italiana nunca conseguia era alcançar o poder, embora por várias vezes chegasse perto disso.
Com o professor de economia Romano Prodi à frente, e pela primeira vez sem o veto papal, a esquerda finalmente alcançou o poder, com a Ulivo, coligação da Oliveira, tendo à frente o PDS, ex-PCI. E nele permanece, com o apoio inclusive da Refundação Comunista, que embora não faça parte da coligação vitoriosa resolveu uma crise política há algumas semanas mantendo o apoio ao governo por mais um ano.
Aliás, um governo que vale a pena acompanhar: de esquerda, mas propondo uma reforma do Estado muito parecida com a que FHC propõe aqui tendo o PFL como parceiro e a esquerda na oposição. Pena que os jornais brasileiros cubram pouco a política italiana.
No entanto, com a `vitória da coligação da Oliveira, liderada pelos ex-comunistas do Partido Democrático da Esquerda - PDS -, os jornais de esquerda na Itália passaram a enfrentar uma das mais duras crises de sua história.
A situação, em resumo, é a seguinte: o L’Unità foi o primeiro jornal italiano a oferecer uma home page na internet. Foi também o primeiro a sair. Enfrenta hoje uma difícil crise. O Il Manifesto, de Rossana Rossanda, o Liberazione, da Refundação Comunista, também estão enfrentando dificuldades. As tiragens estão caindo, as empresas estão em dificuldades.
Há várias interpretações para o fato. Alguns entendem que os jornais partidários e vinculados a correntes não têm mais razão de existir. Outros apontam ou acrescentam a crise de representação contemporânea. Há quem veja problemas de identidade entre manter um jornal de "partido" e governar para a "sociedade".
Um bom debate sobre o tema pode ser encontrado nas páginas do Il Manifesto, na Internet.
Recomendo particularmente os textos de Pietro Ingrao, Rossana Rossanda e de Luigi Pintor, um intelectual independente, influente e original.
(Ver abaixo o endereço do debate.)
Pulitzer de Jornalismo On-line:
abertura para novo debate
Renata Fonseca, de Belo Horizonte, ESTRÉIA
Difícil mesmo é discutir o jornalismo on-line no Brasil. Os estudos (ver abaixo URL na UFBA) estão começando a despontar nas faculdades mas em grande parte não conseguem ultrapassar o muro acadêmico, abandonados em forma de projetos experimentais e poucos artigos publicados internamente.
Para a maioria do público e dos jornalistas no mercado de trabalho acabam restando apenas os debates em congressos e seminários que de longe discutem a fundo o jornalismo na Internet.
Uma grande novidade que talvez abra o campo para novos debates é o Prêmio Pulitzer (ver link abaixo) para o jornalismo on-line. Anunciada no início de novembro (The New York Times, 18/11, caderno Negócios), a abertura do Prêmio para a nova categoria mostra a importância de ficarmos atento à qualidade daquilo que está sendo produzido na Internet pelos principais veículos de comunicação do mundo.
Diante disso surgem algumas perguntas que merecem atenção: como andam os jornais brasileiros na Internet? Qual a preocupação com a disseminação da notícias pela rede? O que sabe o novo jornalista digital? No momento em que novos caminhos estão sendo traçados para o futuro do jornalismo na rede, o que notamos é que a maioria dos jornais on-line de nosso país ainda não conseguiram se desprender da versão impressa e pouco ou quase nada debatem entre si a respeito dos novos caminhos a serem traçados pelo jornalismo digital.
As primeiras versões eletrônicas dos principais jornais brasileiros começaram a surgir na rede com o boom da Internet no Brasil, em 1995. De lá para cá, os investimentos feitos na Internet brasileira cresceram assustadoramente - basta verificar o aumento do número de sites de língua portuguesa na rede.
Hoje, as versões on-line dos principais jornais e revistas do país estão na Web e oferecem dados e informações complementares que ficaram de fora da edição em papel, além de matérias exclusivas para a rede. Porém, a novidade para grande parte dos internautas brasileiros, segundo a última pesquisa realizada pelo Cadê/Ibope, ainda continuam sendo as notícias on-line de última hora.
As matérias que utilizam recursos em multimídia e as notícias personalizadas ainda são pouco exploradas pelo público que visita os veículos brasileiros na rede. Resta saber se é falta de conhecimento e interesse.
O fato é que muitos dos veículos de comunicação on-line ainda não acordaram para os recursos oferecidos pela Internet, jogando para o leitor poucos atrativos que um texto em multimídia ou uma notícia personalizada poderia oferecer. Estaríamos produzindo muito além se tivéssemos a oportunidade para discutir e trocar informações a respeito do jornalismo digital de maneira séria, sem ficarmos presos a preconceitos, infelizmente comuns principalmente entre os donos de empresas de comunicação.
Outro fator que vale ser analisado está relacionado a quem produz o jornal on-line. O jornalista está sendo preparado para encarar os desafios de um veículo digital? Está sabendo aproveitar os recursos oferecidos pela rede para ousar em uma nova linguagem e formato jornalísticos? Informa-se em relação ao que pode ser produzido para a melhoria da qualidade daquilo que está na rede? Essas e outras perguntas ainda não foram levantadas sequer entre os colegas que trabalham com o jornalismo digital.
São questões pertinentes, que precisam ser refletidas juntamente com tudo o que tem sido produzido pelos veículos de comunicação para a rede. Devemos deixar de lado a resistência para nos lançarmos a novas e promissoras experiências com o jornalismo digital através de debates e discussões mais aprofundadas. Já está aberto um riquíssimo campo para experimentações, basta querermos percorrer o caminho. Competência e vontade não faltam.
Brasil precisa ter política para a Net
Nahum Sirotsky
Aqui, de Tel-Aviv, onde me encontro, leio a imprensa brasileira diariamente graças à Net. Tenho no meu bookmark o Estadão, JB, Zero Hora, Universo Online, Correio Braziliense, partes da Gazeta Mercantil, Folha. Às vezes entro em revistas ou bato nos sites do governo, Bovespa e outros.
Não é minha primeira experiência de correspondente, a que estou vivendo. A primeira foi logo no meu primeiro ano de carreira, em 45,enviado pelo O Globo para a cobertura das Nações Unidas. Mas, antes, conforme o país, ficava na dependência da boa vontade da Varig, que trazia os jornais.
Notícias sobre o Brasil na imprensa internacional eram raríssimas. Tinha de ser algo muito negativo, como um grande desastre, um assassinato, um golpe de Estado, coisas desse tipo. Nesse aspecto, não mudou muito. É apenas muito eventualmente que se lê sobre o que acontece aí, como, há dias, na reportagem do Washington Post sobre a hipótese do país entrar em recessão num futuro próximo devido às medidas adotadas pelo governo para preservar o real.
O Brasil ainda não aprendeu a se relacionar com os representantes da imprensa em nosso meio. E não sabe se divulgar pelas suas representações externas nem, agora, pela Net, que não tem fronteiras, mas tem limites. O principal deles é a língua. O inglês, sem dúvida alguma, até a invenção de um ciberesperanto, é a língua da Net.
A Gazeta Mercantil tem uma edição em inglês na Net. O Estadão, algumas notícias. Há bem pouco além disso. Os sites do Governo são pobres e insuficientes no que informam e nos seus links. É uma tristeza saber pelo Estadão ou JB do progresso da nossa indústria de software e descobrir que pouco ou quase tudo se ignora sobre os avanços brasileiros em ciências e tecnologia.
A Gazeta Mercantil é, sem exagero, do nível do Wall Street Journal. Mas o Wall Street Journal lê-se gratuitamente na Internet. A Gazeta cobra uma assinatura como bilhete de entrada em suas paginas. E ela não é tão conhecida quanto o jornal americano, ou o Financial Times. O empresariado brasileiro, que quer exportar ou atrair capital, deveria usá-la como veículo para suas mensagens. A publicidade deveria pagar pelo home e o site, aparentemente, não é suficiente.
O pior mesmo, indesculpável, é a incompetência do governo e de suas instituições, o obsoletismo de sua visão do mundo moderno. As home pages da Administração Publica teriam de ser, obrigatoriamente, os veículos da divulgação do Brasil moderno, o Brasil do real. Não dá para entender. Os americanos capricham nas páginas de suas instituições, promovendo-se como se o mundo não acompanhasse por todos os meios tudo o que fazem. Nós, não.
Precisamos de home pages em inglês com informações do dia e constantemente atualizadas.
Mas, durante um longo período, sua existência terá de ser divulgada em boletins das embaixadas e consulados, de todas as representações brasileiras no exterior, pelos meios convencionais dos boletins em papel, encaminhados aos multiplicadores de opinião, veículos de comunicação de massa, veículos especializados e empresários.