ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 17/11/2009
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Observatório no Rádio
Programa 1170
>>Dinheiro sujo na mídia
>>Poupando o Supremo
Postado por Luciano Martins Costa em 23/11/2009 às 9:14:02 AM
 
 
Dinheiro sujo na mídia

A Folha de S.Paulo destaca, nesta segunda-feira, que as indústrias que mais poluem no Brasil e que mais contribuem para a emissão de gases do efeito estufa são também as que mais influenciam as comissões do Congresso Nacional encarregadas de encaminhar as votações da legislação ambiental.

Segundo o jornal paulista, empresas de setores altamente comprometidos com o aquecimento global formam as doze associações que contribuíram com R$ 60 milhões nas campanhas eleitorais de 2006.

O dinheiro das indústrias de energia, cimento, papel e celulose, agronegócio, mineração, siderurgia e óleos vegetais ajudou a eleger metade dos parlamentares que compõem a comissão da Câmara dos Deputados que está conduzindo as mudanças no Código Florestal.

A reportagem é importante para que o leitor entenda como funcionam os lobbies e como uma decisão nas urnas influenciada por propaganda política bem elaborada e com muito dinheiro acaba produzindo resultados contrários ao interesse do cidadão.

Algumas dessas empresas, como a Bunge, estão envolvidas em campanhas internacionais para desestimular a adoção de metas ambiciosas para o problema das mudanças climáticas, observa a Folha.

O que o jornal esqueceu de mencionar é que as mesmas empresas também se destacam no uso de publicidade para tentar convencer o público de suas boas intenções quanto ao meio ambiente.

A propaganda desses setores, tanto nos jornais quanto na televisão, destaca-se por mencionar invariavelmente suas grandes preocupações com a questão ambiental.

Muitas delas também se apresentam como campeãs da responsabilidade social e costumam financiar os cadernos especiais dos jornais sobre meio ambiente e sustentabilidade.

Não se trata de dizer às organizações jornalísticas que devem rejeitar o dinheiro de empresas sujas – o que também não seria absurdo – , mas talvez fosse o caso de também esclarecer aos leitores a relação que existe entre o lobby que se movimenta para amenizar a legislação de proteção ao patrimônio ambiental e a publicidade que tenta preservar a reputação desses mesmos financiadores.

Ou será que o “lobby” funciona no Congresso mas se torna inofensivo quanto atua sobre a imprensa?

Poupando o Supremo

Alberto Dines: - O Supremo Tribunal Federal não ajudou o cidadão brasileiro a definir o que é certo e errado nem a distinguir justiça da injustiça. Votou pela extradição do militante italiano Cesare Battisti, mas entregou a decisão final ao chefe de outro poder, o presidente da República. A ambigüidade em matéria de delitos e penas é desastrosa, deixa a cidadania desnorteada em questões sobre as quais não poderia haver dúvidas e vacilações. O assassinato político é um assassinato, não há atenuantes sobretudo quando o crime aconteceu num regime democrático.

A nebulosa decisão adotada pelo STF estabelece uma cadeia de relativismos que tornará a sociedade brasileira ainda mais permissiva e permeável à delinqüência do que era antes. E a imprensa ainda não conseguiu reunir a coragem para enquadrar nossa suprema corte. Exceto o Estado de S. Paulo que em sua edição de domingo revelou o clima entre os ministros e mostrou a precariedade do seu debate interno.

As decisões do STF são definitivas, irrevogáveis, mas nada impede que sejam discutidas e contestadas pela sociedade. Nada impede que a imprensa seja tão veemente na crítica à instância máxima do Judiciário como tem sido com o chefe do Legislativo. A não ser que a inapetência da imprensa por uma crítica mais contundente seja uma espécie de retribuição às sentenças favoráveis em duas causas consideradas cruciais para as empresas de comunicação: o fim da Lei de Imprensa e o fim da exigência do diploma para o exercício do jornalismo.

Nos dois casos o STF foi conduzido pela opinião do seu presidente, o ministro Gilmar Mendes, contrariando o bom senso e o bom funcionamento da justiça e nos dois casos a imprensa, muito agradecida, poupou o supremo-magistrado. Agora, não estão em discussão os seus desmandos, mas a sua forma de comandar uma instituição que, sob hipótese alguma, pode ser colocada sob suspeição.

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Observatório no Rádio
Programa 1169
>>Em busca da razão
>>A guerra civil midiática
Postado por Luciano Martins Costa em 20/11/2009 às 9:28:12 AM
 
 

Em busca da razão

Os jornais comentam nesta sexta-feira que o governo decidiu alterar a estratégia para o encontro da ONU sobre mudanças climáticas porque foi convencido de que a ex-ministra Marina Silva, relatora da Comissão de Meio Ambiente do Senado, iria propor transformar a manifestação de intenção para a redução de emissões de gases poluentes em compromisso legal e obrigatório.

A simples presença da senadora acreana entre os possíveis candidatos à sucessão do presidente Lula da Silva tem sido um elemento fundamental para que não apenas muitos políticos de repente se transformem em ecologistas, mas também se nota que a própria imprensa deixa de tratar a sustentabilidade como assunto marginal e se rende à evidência de que é na verdade o tema central em todos os debates atuais.

Em função desse fenômeno, o projeto de emenda à Política Nacional de Mudanças Climáticas já foi aprovado quinta-feira na Comissão de Infraestrutura do Senado e deve seguir sua tramitação sem sobressaltos, pois nem mesmo a bancada ruralista, seguramente o núcleo mais obscuro do Congresso, terá coragem de se opor ao compromisso.

A representação brasileira deve chegar a Copenhague, em dezembro, na condição de líder dos países em desenvolvimento e portadora de iniciativas concretas para a redução das emissões de gases do efeito estufa, conforme destaca o Globo em entrevista.

Trata-se de uma oportunidade histórica para o País, que também se destaca entre as nações que venceram mais rapidamente a crise financeira internacional.

Mais do que isso, porém, o tema sustentabilidade, que por enquanto ainda é tratado de forma simplista na questão ambiental, cria as condições para a superação de outros impasses.

O mais importante e perigoso deles é a radicalização política que impede uma relação civilizada entre o atual governo e a oposição, com marcante participação de uma imprensa claramente partidarizada.

A irracionalidade que tem sido característica da imprensa e das relações políticas no Brasil nos últimos anos pode dar lugar a um diálogo proveitoso, se as partes se conscientizarem de que há muito mais riqueza nos debates sobre desenvolvimento sustentável do que nas atuais querelas que movem as opiniões.

Mas a imprensa tem que se desarmar e ampliar sua visão para os grandes desafios e oportunidades que se abrem para o Brasil. 

A guerra civil midiática

Alberto Dines:

- O que impressiona no programa sobre a Venezuela exibido pelo “Observatório da Imprensa” (terça, 17/11) é, em primeiro lugar, a intensidade da polarização em torno da mídia. Mentes lúcidas, racionais, extremamente sofisticadas, não conseguem esconder o dramático impasse. Independente das posições, pró ou contra Hugo Chávez, todos  os venezuelanos ouvidos concordam num ponto: não existe possibilidade de diálogo.

Já não existe necessidade de se fazer um bom jornalismo porque na Venezuela ninguém quer jornalismo, todos querem propaganda. No entanto, este quadro pré-ruptura não consegue motivar a mídia latino-americana e internacional. Somos obrigados a reconhecer que a cobertura desta guerra midiática na Venezuela esta igualmente intoxicada pelos ressentimentos e preconceitos que correm fora dela.

Surge então a grande questão: porque razão os grandes veículos, brasileiros e estrangeiros, não conseguem aquele mínimo de equilíbrio para reproduzir ao menos o inexorável caminhar para o confronto?  Será tão difícil reunir e comparar opiniões divergentes, sem tomar partido?

Já que no interior da sociedade venezuelana os ânimos estão tão exaltados, fora dela, em outros contextos e continentes, não seria possível repetir a experiência do “Observatório da Imprensa” com mais recursos e para audiências maiores? Falta disposição, falta senso de urgência ou simplesmente falta solidariedade?

A verdade é que ser solidário com a Venezuela, neste momento, significa não tomar partido algum e, assim, escapar da terrível compulsão maniqueísta. A terceira via nada tem de escapista, ao contrário, é a única alternativa capaz de mostrar aos beligerantes que existem outras dinâmicas além da confrontação. Não adianta convocar a OEA, a UNESCO, a ONU ou o Tribunal de Haia. É preciso convocar a própria mídia internacional para exibir o seu poder de persuasão. E se este potencial já está esgotado teremos que admitir que o jornalismo já não faz sentido.

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Observatório no Rádio
Programa 1168
>>País do curto prazo
>>Andando para trás
Postado por Luciano Martins Costa em 19/11/2009 às 9:14:59 AM
 
 
País do curto prazo

A leitura dos jornais brasileiros sugere que o País está sempre discutindo os mesmos velhos assuntos, e que nem mesmo as grandes reformas institucionais, aquelas que ganham manchetes por dias a fio, são coisa séria.

Agora volta ao noticiário a questão da Previdência Social, que foi tema recorrente da imprensa durante meses, no meio do duplo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Na ocasião, um ambicioso projeto de qualificação mobilizou milhares de funcionários do INSS, enquanto o Congresso Nacional discutia as propostas para desonerar o sistema previdenciário.

Passaram-se os anos e novamente o Congresso está às voltas com a previdência, discutindo o que? – A mudança no sistema de cálculo da aposentadoria, a questão central que provocou toda a controvérsia em 1998.

Um projeto do deputado petista Paulo Paim tenta acabar com o fator previdenciário e ressuscita o cálculo da aposentadoria com base nos últimos três anos de contribuição, o que permitiria a muitos brasileiros, daqui para a frente, contribuir durante o período final de atividade com base no valor do salário mínimo e se aposentar com o salário-teto.

Especialistas citados pela imprensa afirmam que essa alteração poderá funcionar como uma bomba-relógio nas contas da previdência, eliminando todo o esforço realizado em dez anos para reduzir o déficit do sistema.

A economia feita nesse período em que esteve em vigor o fator previdenciário chega a R$ 10 bilhões, o que tem permitido manter o sistema em funcionamento.

A mudança também pode produzir a divisão dos inativos em duas categorias de cidadãos – aqueles que se aposentaram depois da reforma e aqueles que viriam a se aposentar depois da mudança que está sendo proposta.

A enxurrada de ações na Justiça pedindo isonomia seria inevitável e os efeitos sobre as contas do sistema previdenciário oficial seriam incalculáveis.

Mas a imprensa costuma discutir apenas a questão das contas públicas e deixa de lado os interesses dos cidadãos que contribuem para a previdência.

Andando para trás

Claro que a questão tem muitos outros elementos que não cabem neste comentário, e certamente os aposentados que se sentem lesados com um rendimento insuficiente após uma vida inteira de contribuição têm motivos para detestar a reforma de 1998.

Mas a questão central, que não aparece no noticiário, é a aparente incapacidade deste país de manter por muito tempo as políticas públicas anunciadas como de “longo prazo”.

A polêmica sobre a previdência tem freqüentado o noticiário eventualmente, com referências curtas aqui e ali, e ganha destaque nesta quinta-feira apenas em um jornal, O Estado de S.Paulo.

Segundo o jornal, as alternativas em discussão não conseguem produzir um consenso, porque qualquer escolha deixará muitos prejudicados.

O caso da previdência serve como ilustração para outros temas nos quais os legisladores conseguiram, desde o processo de redemocratização, produzir algumas medidas que ajudam o Brasil a se colocar como um país bem servido de normas.

A segurança jurídica é um dos elementos essenciais para ajudar o país a se consolidar como protagonista importante nas relações internacionais.

A questão da jornada de trabalho, que também está sendo motivo de debate no Congresso, se inclui entre os temas que provocam polêmica por envolver direitos consolidados e interesses variados.

Mas em geral a imprensa apenas noticia a evolução das controvérsias, o andamento de projetos nas comissões do Congresso e opiniões envolvidas, não oferecendo ao público uma visão abrangente de cada assunto.

Além disso, nota-se claramente que os temas preferidos pelos jornais são os que envolvem negócios.

Mas há outros assuntos, igualmente importantes, que não têm merecido a mesma atenção da imprensa.

Por exemplo, o Brasil corre o risco de sofrer um retrocesso no controle do desmatamento, com a tentativa de amenizar os efeitos do Código Florestal.

Da mesma forma, sub-repticiamente e sem a vigilância da imprensa, a bancada da jogatina tenta fazer retroceder a legislação que proíbe os bingos e jogos eletrônicos, atividades que costumam servir de fachada para a lavagem de dinheiro da corrupção e de outros crimes.

O preço da liberdade – e da modernidade – é a eterna vigilância.

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Luciano Martins Costa
O programa Observatório da Imprensa no Rádio, produzido pela Cultura AM de São Paulo, é apresentado por Luciano Martins e
tem a participação de Alberto Dines. É transmitido de segunda a sexta-feira pelas emissoras abaixo. Para ouvir as emissoras pela internet clique sobre o nome sublinhado. São Paulo
* Cultura FM (103,3 mHz) de São Paulo, 9h;
Cultura AM (1200 kHz) de São Paulo, 9h;

Rio de Janeiro
* Rádio MEC AM (800 kHz), 10h30;

Brasília
* Rádio Nacional FM (96,1 mHz), 10h30;
* Rádio Nacional AM (980 kHz), 12h30.

Rio Grande, RS
* Rádio Universidade Federal do Rio Grande FM (106,7 mHz), 11h30

Belo Horizonte
* Rádio Inconfidência AM (880 kHz), 9h30;
* Rádio Inconfidência FM (100,9 mHz), 12h30.


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