Alberto Dines
Caso Boni:
reparos que faltam
As declarações de José Bonifácio Sobrinho, o Boni, a propósito da sua saída da cadeia de comando da TV Globo não têm sido devidamente glosadas pela imprensa. Entusiasmada como sempre em aproveitar o episódio para dramatizar a crise do Anti-Cristo Mediático, isto é, a Rede Globo, ficaram sem correção algumas impropriedades históricas divulgadas pelo milionário desempregado (ver abaixo remissão para trechos da):
* Cumpre dizer que o Boni não construiu sozinho o padrão Globo de qualidade. Walter Clark foi um dos seus principais artífices e, por isso, pagou - foi saído muito antes. Nos anos 70 a dupla que funcionava no telejornalismo era Clark-Armando Nogueira, e não Boni-Armando Nogueira.
* Como a TV Globo em seu comunicado não minuciou questões internas, o Boni agora tenta limpar a barra condenando a "apelação" e "baixaria". Ao que consta, a história não é bem esta.
* A autonomia da Central Globo de Jornalismo escapando do controle do Boni representou um avanço fundamental. Com o Boni no comando jamais se conseguiria fazer os investimentos nas matérias investigativas que marcaram o telejornalismo brasileiro em 97.
* O pífio desempenho do Jornal Nacional nas recentes crises econômicas e políticas decorre de opções erradas no dia-a-dia numa operação atravancada por nulidades. Se dependesse do Boni, o noticiário diário seria ainda pior, na linha do Fantástico.
Grande sabatina
mirrou nas domingueiras
Unanimidade na situação, oposição, Executivo e jornalistas políticos: a sabatina à qual foram submetidos os ministros Pedro Malan e Antônio Kandir durante sete horas (22/11) perante o Congresso foi um marco histórico. Pelo entrosamento entre os poderes e pela presença maciça de parlamentares num fim-de-semana.
Mas o grande evento saiu mirrado nos jornais de domingo. O marco histórico não entrará para a história simplesmente porque os jornalões o minimizaram.
Tendo começado às 10h20 e terminado às 17h30, a sabatina não conseguiu ser incluída nas domingueiras, as edições nobres do dia mais nobre. Sobrou das edições ditas "nacionais" dos quatro jornalões do dia seguinte. E mesmo nas edições locais (S. Paulo e Rio) que atendem os assinantes - leitor que paga adiantado por um jornal de qualidade - o teor do material foi claudicante, muito aquém da sua importância.
Pior: na edições de segunda-feira, o leitor curioso também não encontrou o registro à altura do marco histórico. Inclusive na Gazeta Mercantil, jornal que se pretende referencial
Avança a tecnologia, aumentam os investimentos em promoção e diminui a capacidade dos diários de manter-se como diários.
Troca-troca nos
semanários
Movimento no mercado revisteiro: sai um grupo de altos executivos da redação de Veja para formar a equipe que começa a preparar o novo semanário da Editora Globo. Não será mais a versão brasileira da Time - felizmente -, mas ainda não se sabe se será editada no Rio ou em S. Paulo. Nada contra a paulicéia desvairada, Manhattan-on-Tietê, mas o país ficará mais bem coberto e o público mais bem servido se o Rio de Janeiro voltar a ser um centro irradiador de bom jornalismo.
Também interessa ao leitor que esta não seja uma mera oportunidade para aumentos de salários dos astros, como aconteceu com o recente câmbio de âncoras de TV. É preciso que a troca de guarda signifique uma efetiva alteração de padrões de qualidade.
Nosso jornalismo semanal hoje é uma sombra do que já foi.
Últimos avanços
da pesquisite
* A Gazeta Mercantil também foi vitimada pelo ilusionismo plebiscitário que tomou conta do jornalismo pátrio. Na edição de 26/11, publicou com destaque uma pesquisa feita junto à "elite" da Câmara Federal (60 deputados) indicando que haverá 2º turno nas eleições presidenciais. E daí ? Qual o critério que norteou a qualificação desta "elite"? Por que não se ouviram TODOS os deputados, existe um voto qualitativo? Quem patrocinou a pesquisa? Qual o valor de um prognóstico de deputados que mal conseguem saber qual será o placar da próxima votação em plenário?
* O JB não resiste aos modismos. O único jornal que poderia singularizar-se, apostando em qualidade, resolveu imitar a Folha no que esta tem de pior. Lançou a "Voz do Leitor" na página 6, ao lado da coluna de tititi político, para comprovar como é adorado pelos leitores. São ouvidos diariamente 60 assinantes, por telefone, com questionário fechado. E, com isto, o jornal sente-se legitimado para continuar seu vôo de barata tonta.
* Um executivo brasileiro ganha o equivalente a 48 operários, informa uma pesquisa feita em 22 países, além do Brasil, publicada pela Folha (27/11, p.2-9). Como de hábito, não se informa o tamanho do universo pesquisado e o porte das empresas. Pode-se concluir que a distância funciona também nas empresas jornalísticas - o que certamente explica o brutal alheamento da nossa mídia preocupada com desfiles de moda e elucubrações filosóficas das modelos.
Realidade e
virtualidade no DF
O que é mostrado sobre Brasília nos telejornais, radiojornais e jornais propriamente ditos é o que efetivamente aconteceu no dia anterior? Fatos ou factóides?
O noticiário sobre a votação da reforma do estatuto do servidor (quarta-feira, 26/11) apresentou Paulo Maluf como o herói da jornada. No dia seguinte, no Bom Dia, Brasil, o colunista político de O Globo Franklin Martins, um dos poucos que não se deixa levar pelo clima de tititi, colocou os pontos nos "ii" - não foi bem assim. E, com números, mostrou a relatividade de Maluf.
Pena que em seu jornal alguém tivesse escrito no mesmo dia: "Para todos os efeitos Maluf salvou uma votação dada como perdida".
Está bem: não existe pool na Capital. Chamemo-lo de bumerangue.
Hipólito da Costa
ficaria orgulhoso
O mais importante jornal do Distrito Federal não chega a ser um jornal efetivamente nacional, é um clássico jornal regional. Em compensação, o Correio Braziliense, está dando magníficas lições de lisura às arrogâncias jornalísticas federais:
* Na primeira página da sua edição de 26/11 publicou uma retificação inequívoca de erro cometido dois dias antes: "A história, no todo ou em parte, era mentirosa". Na página interna do Caderno de Cidades, na "Carta ao Leitor", Ricardo Noblat, diretor de Redação, historia minuciosamente o episódio e pede desculpas aos leitores (ver abaixo remissão para Entre Aspas).
* Dias antes, na edição de 23/11, na mesma "Carta ao Leitor" (que está se convertendo em cartilha de jornalismo para os leitores), Noblat explica por que seu jornal preferiu omitir o namoro entre o filho do presidente e Tereza Collor, salvo um registro na coluna mundana (ver abaixo).
O fundador do Correio Braziliense, Hipólito da Costa, patrono do jornalismo brasileiro, pode sossegar: seu título está em boas mãos.
Entenda a força
dos lobbies
No alto da sua primeira página de 29/11, a Folha apresentou um daqueles seus infográficos com títulos mandatórios sobre as alterações no pacote fiscal: "entenda as medidas anunciadas". Em baixo de cada um delas, o lobby vencedor.
Das seis alterações, pelo menos duas tiveram a mídia como lobby ostensivo: atenuação do corte nos incentivos à cultura e diminuição do aumento nas taxas de embarque para o exterior.
Nestas duas questões, os jornalões apostaram pesado porque: 1) se o governo deixar de incentivar comédias ligeiras no teatro e a produção de filmes, cairá o faturamento de publicidade nos cadernos de entretenimento; 2) se cair o fluxo de turismo para o exterior, sofrerão os cadernos de turismo, que vivem de seus anúncios.
Vale-tudo
cultural
Imagina-se que nos suplementos culturais ou multiculturais não haja lugar para jogadinhas rasteiras. Duas indicações em sentido contrário:
* A "entrevista" publicada no Segundo Caderno de O Globo com o poeta Raduan Nassar (22/11/97) simplesmente não foi concedida. Segundo depoimento do próprio, tratou-se de uma conversa informal onde este, seguidas vezes, advertiu que não era para publicação. Mesmo assim, a matéria foi publicada como pingue-pongue.
* A matéria da Ilustrada sobre Arrabal (30/10), ao longo de três páginas contem apenas algumas frases entre aspas. O resto é material de arquivo. Originou-se de uma provocação da agente do teatrólogo, que sabia de uma longa entrevista de três páginas que este concedera ao concorrente. Na febre do furo, a meninada da Folha fez exatamente o que a lobista queria: outra longa matéria sobre seu cliente.
Cultura é isto.
Leitora também
quer qualidade
Claro que isto não dizem em público. Mas sempre que se critica o mundanismo dos nossos semanários e das primeiras páginas domingueiras dos jornalões a desculpa é sempre a mesma: atrair mais leitoras.
Em outras palavras: baixamos o nível porque a nossa leitora é incapaz de interessar-se por questões sérias.
O New York Times tem uma visão diferente da sua leitora e dos padrões de exigência das mulheres. O primeiro caderno de qualquer dia é seriíssimo, sem concessão alguma à trivialidade. E apesar disso as dez primeiras páginas deste caderno estão abarrotadas de anúncios caríssimos, dirigidos justamente ao publico feminino onde sobressaem anunciantes peso-pesado do segmento: Cartier, Saks Fifth, Mikimoto, Macy’s, Bergdorf Goodman, Tiffany, Bulgari, H. Stern, etc., etc.
Alguém deveria protestar contra esta visão preconceituosa da mulher.